Blindados vencidos por tratores. Os erros estratégicos dos russos e as proezas militares dos ucranianos

A primeira estratégia dos russos era tentar tomar todo o país rapidamente e fazer saltar o governo de Kiev, instalar o seu próprio executivo pró-russo em 72 horas, e completar operações de limpeza até 8 de março. “Isso revelou-se totalmente impossível, mas esse era o seu objetivo inicial. Quando falhou, criaram uma guerra de manobra, tentando cobrir grandes partes do país, tentando ter as suas tropas a aproximar-se vindas da Rússia, da Crimeia, para criar grandes setas no mapa para circundar as tropas ucranianas”, explica Michael Clarke.

A guerra de manobra é uma estratégia militar que tenta, através do choque e da perturbação, incapacitar a tomada de decisões do inimigo, derrotando-o.

Não só não funcionou, como os russos não conseguiram alcançar as cidades que mais lhes interessavam, à parte de Kherson. “Ficaram sem mais nada para fazer do que bombardear as cidades. Essa foi a segunda estratégia. Não resultou. Agora a terceira estratégia é concentrar em Donbass e tentar segurar toda aquela região”, diz o analista militar. Por enquanto, lembra, os separatistas pró-russos só ocupam um terço das províncias de Donetsk e Lugansk e, militarmente, faz todo o sentido que os russos tentem ficar com a totalidade da região, tentado manter a ponte terrestre com a Crimeia, que inclui Mariupol.

NATO suspeita que a Rússia está apenas a reposicionar forças

“A informação que tenho, não que os russos tenham confirmado, é que retiraram algumas unidades para a Bielorrúsia para reequipar e recuperar. E as reservas que estão a chegar, estamos a falar de 10 batalhões de grupos táticos, a maioria parece estar a ir para o sudeste, na direção da região de Donbass. Faz sentido militar que os russos se concentrem no sudeste e que tenham mudado os objetivos políticos, da conquista de toda a Ucrânia para conquistar outro pedaço do país, como em 2014”, diz Michael Clarke.

O problema é que naquela linha de terra vivem cerca de dois milhões de pessoas e, lembra o analista britânico, grande parte delas odeia os russos. “Não será uma situação pacífica. Até agora a Rússia tem conseguido criar os chamados conflitos congelados”, como na Geórgia, na Ossétia do Sul, na Abecásia, ou na Transnístria, na Moldávia. Um conflito congelado descreve uma situação pós-guerra (ou depois de uma crise) em que o conflito se encontra latente, sem ter sido resolvido através de um tratado de paz ou de outro tipo de mecanismo.

“Se acabarem por ficar com Donbass e esse pedaço de terra que leva à Crimeia, tenho a certeza de que não será um conflito congelado. Os russos vão ter de continuar a lutar para mantê-lo. E as pessoas naquela área, vão continuar a revoltar-se contra eles”, argumenta Michael Clarke, dizendo que esta será uma situação diferente das conquistas anteriores da Rússia. “Com Putin foi sempre assim: ele cria uma crise, pega num pedaço de território ou influência, consegue colocar isso no bolso e afastar-se. Mas não vai conseguir pôr isto [Donbass] no bolso, vai ter de lutar para o manter.”

Do lado da Federação Russa o entendimento será diferente. Entre a maioria dos comentadores ocidentais, e entre aqueles que o Observador ouviu, a opinião é unânime. A Rússia tem cometido todo o tipo de erros no conflito que ela própria desencadeou, sem provocação. Erros militares, políticos, estratégicos e até de comunicação.

“Há muitos erros. Mas o maior erro de Putin parece ser o facto de ele não contar com uma defesa ucraniana”, diz Vikram Mittal, militar na reserva do Exército dos Estados Unidos, tendo essa defesa todas as virtudes estratégicas que já vimos. “Também as operações de logística e de sustentação para os soldados russos não parecem ter sido bem planeadas. Contavam com uma vitória rápida. Quando isso falhou, tiveram de se esforçar para descobrir maneiras de reabastecer as unidades”, diz o professor da Academia Militar dos Estados Unidos, em West Point.

Até a época do ano foi mal escolhida, diz o militar. “Os russos escolheram o pior momento possível para invadir. Se tivessem feito isso antes, o chão ainda estaria congelado, permitindo que seus veículos mais pesados ​​não ficassem presos na lama. Se eles tivessem esperado até mais tarde, o chão também teria sido mais duro (estava encharcado pela neve derretida). Muitos equipamentos russos simplesmente ficaram presos.”

Erro ou estratégia de guerra. Por que motivo as guerras russas fazem sempre tantas baixas entre a população?

Para Oleg Ignatov, os erros foram essencialmente políticos. “A liderança política russa disse aos militares que o governo ucraniano ia falhar muito rapidamente. Os políticos disseram que como o governo ia desaparecer, não era preciso uma campanha longa. Quando chegassem ao pé de Kiev, Zelensky ia deixar a cidade. Só precisavam de chegar à capital, com um pequeno número de tropas, e os ucranianos iam levantar as mãos”, sustenta o analista sediado em Moscovo. Só que isso, defende, não é um erro da liderança militar russa. “É um erro dos serviços secretos russos e da liderança política. Os militares estão a fazer o que os políticos lhes ordenaram.”

Professor da Universidade de Harvard, Jeremy Friedman lembra que para além de terem subestimado o nível de resistência, os russos “pensaram que iam ter mais apoio entre o povo ucraniano” e subestimaram a sua capacidade de lutar. Em contrapartida, a vontade de ir para a guerra não será grande entre os russos.

“A moral é um grande problema entre as tropas russas. Ninguém teve uma palavra a dizer, parece que até os conselheiros mais próximos de Putin ficaram surpreendidos. Ninguém esperava a guerra e ninguém estava preparado para ela. Não havia base de suporte entre a população, então é difícil reunir soldados para uma guerra que ninguém sabe que vai acontecer”, acrescenta Jeremy Friedman, investigador do Centro Davis para Estudos Russos e Euroasiáticos de Harvard.

“Esta é a grande diferença entre a Ucrânia e Taiwan. Na China estão preparados para tomar Taiwan, na Rússia não estavam preparados para esta guerra”, sublinha o autor do livro Shadow Cold War: The Sino-Soviet Competition for the Third World.

Por último, a sua opinião complementa a de Oleg Ignatov, quando este fala em erro político: “Putin construiu um regime em que ninguém diz a verdade, incluindo a ele próprio, que está no topo. Ele gastou muito dinheiro em armas novas e sofisticadas, mas criou um sistema em que tudo está corrompido e ninguém sabe exatamente para onde vai o dinheiro.” Por isso, Friedman defende ser difícil saber se o dinheiro, ou pelo menos a sua totalidade, foi para onde deveria ter ido.

“Não sabemos e não creio que Putin saiba. Ficamos com a sensação de que a informação que ele recebeu dos serviços de inteligência eram mentiras, as que ele queria ouvir, mais do que verdadeira informação”, conclui o professor.

Por outro lado, a forma como as pessoas avançam num regime autoritário como o de Vladimir Putin é por ser “amigável com o poder”, não por ser competente: “É inteiramente possível que as pessoas que lideram os militares — como Sergei Shoigu, ministro da Defesa — não sejam grandes guerreiros ou estrategas militares, apenas amigos próximos de Putin. Os níveis de competência entre a alta hierarquia militar russa não são assim tão bons.”

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