Ficheiros secretos do FBI revelam que jiadista luso-holandesa colocou duas granadas de mão à venda pelo Whatsapp – Expresso

As autoridades dos Países Baixos receberam em março do ano passado do FBI um CD-ROM com novas informações sobre Ângela Barreto, a jiadista luso-holandesa que foi condenada esta sexta-feira a quatro anos e meio de prisão por dois crimes de terrorismo: participação em organização terrorista e preparação e promoção de crimes terroristas.

O acórdão do tribunal de Roterdão obtido pelo Expresso revela que o FBI teve acesso a um cartão de memória de um tablet apreendido por forças da coligação que combateram o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). Tablet que pertencia a Ângela Barreto. O CD-ROM entregue pelo FBI, mostra mensagens de Ângela Barreto com a mãe entre novembro de 2018 a fevereiro de 2019 – altura em que o autoproclamado califado estava a ruir – em que são reveladas “informações sobre bombardeamentos, combates perto do local onde estava a residir”. Ângela Barreto escrevia que “outras pessoas estavam a partir e a render-se, mas que ela estava a lutar pela sua fé e que estava em Baghuz”, o último reduto dos jiadistas.

O tablet continha ainda um testamento escrito pela jiadista em que esta revela que tem uma Kalashnikov e duas granadas de mão. No testamento, ela pede ainda perdão à sua mãe porque recebeu dinheiro dela para poder fugir do califado em queda mas que não tinha realmente o intenção de regressar aos Países Baixos. Ângela mostra o desejo que o seu filho venha a ser “um rapaz forte e deve matar o maior número possível de descrentes para entrar no paraíso”.

A polícia federal norte-americana teve também acesso ao telemóvel usado pela luso-holandesa na Síria. Nele detetou um grupo de conversação no WhatsApp com o nome: “O mercado do califado”, criado em outubro de 2018 e que era utilizado por Ângela Barreto. Numa das mensagens, a jiadista dizia vender as duas granadas de mão que lhe pertenciam.

“Luto na Síria pela minha liberdade”

De acordo com o tribunal de Roterdão, antes da sua partida para o califado em agosto de 2014, bem como durante toda a sua estadia na Síria, Ângela Barreto conhecia “bastante bem” as atividades terroristas dos seus três maridos – dois deles os portugueses Fábio Poças e Nero Saraiva – como membros de um grupo de atiradores furtivos do Daesh. E que a luso-holandesa escolheu conscientemente juntar-se à organização jiadista e ocupar-se com a preparação e promoção de crimes terroristas.

O tribunal realça conversas de Ângela Barreto com a mãe em termos inequívocos:”In sha Allah (Oxalá) ficarei aqui até morrer e que Alá me dê forças para lutar”; “Os meus filhos irão comigo ou ficarão e crescerão como mujahideen (combatentes)”; “Como esposa de mujahid, sinto-me tão bem por ainda estar aqui enquanto todas as outras pessoas se vão embora e se entregam ao inimigo”; “Luto aqui pela liberdade da minha fé e não tenho qualquer intenção de fazer de outra maneira”.

A defesa garante que estes textos foram escritos por terceiros, uma tese rejeitada pelo tribunal.

Distúrbio de personalidade

O acórdão refere ainda que Ângela Barreto foi diagnosticada com um distúrbio de personalidade com traços do grupo B. Esta é a classificação para pessoas frequentemente impulsivas e com dificuldade em lidar com as suas emoções. Quatro tipos pertencem a este agrupamento: borderline, teatral, anti-social e transtorno de personalidade narcisista.

O magistrado levou no entanto em consideração “a responsabilidade reduzida da acusada”. Especialistas ouvidos no tribunal de Roterdão revelaram que “os factos e circunstâncias que levaram à saída da suspeita para a Síria são menos atribuíveis a ela, em função da crescente ingenuidade e influência da suspeita durante esse período”.

À arguida também será imposta uma medida pelo tribunal para controlar o seu comportamento. “A mulher é sensível às influências dos outros, especialmente dos parceiros, e parece motivada a enfrentar os seus padrões disfuncionais”, refere o tribunal.

Jeffrey Jordan, advogado da luso-holandesa, já disse que vai recorrer da sentença. O advogado garantiu que a jiadista lhe confiden­ciou à SIC que ela foi “forçada” a juntar-se àquela organização terrorista quando se encontrava no autodenominado califado. “Foi para a Síria sem saber para o que ia e quando descobriu já era tarde demais. Se fosse contra o Daesh, seria morta.”

Jeffrey Jordan salientou que ela tentou fugir várias vezes, mas houve sempre algo que correu mal. “Ângela precisava de dinheiro, mas não tinha, e era difícil de fugir dali.” E está convicto de que a mulher, de 26 anos não representa ameaça e já provou que “é uma grande mãe” e “uma vítima” do Daesh. “Ela não testemunhou execuções.”

Seis anos depois de ter fugido de casa, a luso-holandesa disse estar arrependida de ter deixado o seu país, a família e sobretudo a mãe. “Está envergonhada de se ter juntado ao Daesh.”

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