Imagem de Nossa Senhora de Fátima recebida por multidão na Ucrânia. A história de 100 anos de ligação entre Fátima e a guerra na Rússia

Esta parte do segredo de Fátima tem sido interpretada pela Igreja Católica como um alerta divino para os perigos do regime comunista e ateu que naquele ano começava a ganhar forma na Rússia — e que viria a ser responsável por grande parte das ameaças à paz global durante o século XX.

A terceira parte do segredo — e a mais controversa de todas, uma vez que se manteve efetivamente em segredo até à sua revelação por parte do Vaticano no ano 2000 — referia-se à ameaça ao “bispo vestido de branco”, uma referência posteriormente interpretada como uma profecia sobre os perigos que corria o Papa João Paulo II. O pontífice polaco foi alvo de um atentado contra a sua vida no dia 13 de maio de 1981 e, mais tarde, ofereceu a bala com que foi atingido ao Santuário de Fátima, como agradecimento por considerar que tinha sido a mão da Virgem Maria a desviar a trajetória da bala no último segundo.

O pedido da Virgem Maria foi atendido pelo Papa João Paulo II em 25 de março de 1984, quando, perante a imagem original de Nossa Senhora de Fátima, o Papa consagrou a Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Para os crentes, há poucas dúvidas de que o cumprimento da vontade de Nossa Senhora foi determinante para o colapso do bloco soviético, que se desenrolaria nos anos seguintes. Um dos episódios mais conhecidos foi o desastre de Severomorsk, que ocorreu menos de dois meses depois da consagração — e justamente no dia 13 de maio de 1984. Nesse dia, uma grande parte das munições destinadas a equipar uma das frotas navais soviéticas detonou acidentalmente, limitando consideravelmente a capacidade dos russos de lançar um ataque marítimo contra a Europa.

O colapso da União Soviética e da esfera de influência de Moscovo, que se precipitou nos anos seguintes, é habitualmente ligado pela Igreja Católica à intervenção da Virgem Maria — e o Santuário de Fátima tem inclusivamente em exposição um fragmento do Muro de Berlim, cuja queda em 1989 simbolizou o fim da divisão na Europa.

Agora, com o regresso da guerra ao leste da Europa e a Rússia como protagonista do conflito armado, o Papa Francisco já anunciou que vai voltar a consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, de acordo com o pedido formulado há mais de um século pela Virgem Maria em Fátima. A consagração vai ser realizada na sexta-feira da próxima semana, 25 de março, quando se cumprem exatamente 38 anos desde que João Paulo II fez o mesmo.

Mais de cem anos depois das aparições de Nossa Senhora que moldaram decisivamente a tradição religiosa de Portugal, o Santuário de Fátima volta a assumir um papel de relevo na abordagem espiritual ao conflito armado na Rússia — desta vez com o envio de uma estátua da Virgem Peregrina, uma das principais ferramentas de difusão da mensagem de Fátima ao dispor do santuário português.

Como o Observador explicava em 2017 num artigo de fundo sobre a valiosa imagem original de Nossa Senhora de Fátima, aquela estátua, que é o maior tesouro do santuário, é protegida com as maiores cautelas: não só a imagem é guardada numa redoma à prova de bala, como há menos de dez pessoas que têm autorização para lhe mexer e só o podem fazer com luvas e com todo o cuidado. Só em raríssimas ocasiões a imagem original sai de Fátima: apenas para ser transportada até ao Vaticano, a pedido do Papa João Paulo II e, mais recentemente, de Francisco. Contudo, nem sempre foi assim: até à década de 1940, era comum que a escultura viajasse por todo o mundo, em peregrinações e celebrações com vista à difusão da mensagem de paz associada à revelação de Fátima.

A história e o mistério do maior tesouro de Fátima

Quando o Santuário de Fátima ganhou a perceção de que a escultura original — fabricada antes de 1920 — era um tesouro que deveria ser preservado a todo o custo, a instituição deu, em 1946, início a um projeto que se prolonga até aos dias de hoje: a imagem peregrina. A primeira réplica foi construída na década de 1940 pelo mesmo autor da imagem original, com indicações muito específicas dadas pela própria Irmã Lúcia. A partir daí, o Santuário de Fátima foi construindo sucessivas réplicas da escultura. São hoje treze as estátuas “irmãs”, que percorrem todo o mundo em peregrinações de paz.

A escultura que se encontra atualmente na Ucrânia é a imagem peregrina número 13, uma réplica exata da primeira imagem peregrina, entretanto colocada de modo definitivo na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

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Imagem de Nossa Senhora de Fátima recebida por multidão na Ucrânia. A história de 100 anos de ligação entre Fátima e a guerra na Rússia

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